19/12/2007

Novo lar, doce lar

O senhor, que me vendeu o cachorro, parecia querer se livrar dele o mais rápido possível como que de uma doença. O animal era bonito, não parecia nada com o que alguém se agitaria. Levei-o para casa logo depois de parar em uma loja para comprar os aparatos necessários para a criação de um cachorro, comida, potes, etc. O cachorro a todo tempo estava deitado, e quieto. Achei que ele estava doente e encontrei um veterinário de confiança para examiná-lo.

A primeira semana foi bem tranqüila, eu saia de casa cedo pela manhã e voltava à noite, minha empregada o alimentava e nunca foi criado nenhum problema, nenhuma perturbação por latidos. Era praticamente o animal de estimação perfeito, até obedecia a algumas ordens simples que eu dava.

Na segunda semana minha moral no condomínio estava abaixo de zero, o animal latia o dia inteiro, e tentava morder tudo o que estivesse por perto, um dia o alvo foi a empregada, junto com documentos da minha empresa. Estou me perguntando se o primeiro dono do cachorro deixou de me comunicar alguns hábitos dele.

Terceira semana. Definitivamente estou enlouquecendo, o monstro agora não pára de latir noite e dia, estou ameaçado de ser despejado de meu apartamento, com insônia, mal consigo ir ao trabalho. Tomo uma dúzia de remédios por dia para todos os problemas possíveis. Mas minha mãe disse que não cuida do cachorro se eu for internado.

Acho que vou agora preparar a comida porque ele gosta de dormir cedo, aliás, tenho que comprar um sofá, o chão não é tão confortável quanto a minha cama, na qual ele está dormindo agora.

06/11/2007

Velho inconspícuo

Euclides vivia no interior do estado. Ele era um capinador às antigas que já trabalhara como colocador de rolha em garrafa de refresco. Trajava uma jardineira desbotada e um chapéu de palha feito por sua mulher. Foi quando um dia ganhou uma viagem à cidade grande para passar as férias, e então, nossas histórias se cruzaram...

Eu entrei no saguão do hotel, no qual estava hospedado, e vi um senhor de idade e de aparência caipira à frente do elevador. Aparentemente ele não se conformava em apertar o botão uma vez, tanto que o apertava constante e ininterruptamente.

O elevador chegou e todos entraram, mas para nosso desespero o velho havia apertado todos os números e só depois de dez paradas cheguei ao meu destino, porém, disposto a ajudar expliquei o que o caipira deveria fazer ao chegar a seu quarto para se instalar. Desejando que ele acertasse e eu não o encontrasse mais.

Engano miserável. Quando subi ao quarto de meu colega para informar a cotação da bolsa, vi o senhor tentando por a porta a baixo. Fiquei assustado quando ele me informou que passou a noite tentando abrir a porta, e ficou indignado por ninguém atendê-lo quando bateu palmas e gritou.

Expliquei-lhe que o quarto estava vazio e que a porta tinha de ser aberta por uma chave para depois a pessoa ingressar em seus aposentos. Depois que descrevi a chave, ele falou:

“Ah, aquele quadradinho colorido? Estava me incomodando no bolso, então o joguei por aquela janela...” e apontou para o outro lado do corredor. Aquilo me soou como uma doença mental.

Eu saí correndo do hotel, porque vai que era contagioso...

29/10/2007

A vida de Nova Sant’anna

Nova Sant’anna era um vilarejo no interior de algum lugar desconhecido. Por lá só passavam mensageiros uma vez por ano, perdidos de seu trajeto. Os arredores eram controlados por dois grandes fazendeiros que acabavam por interferir na vida da pequena população. Um deles, porém, tinha um sério problema de roubos e, por tanto, não possuía mais nenhuma cabeça de gado, seu pasto estava vazio. Infeliz jantar, oferecido pela filha do rico, no qual o anfitrião comenta, em tom de piada, sobre a situação do vizinho: “O senhor deveria se preocupar, senão daqui a pouco eu compro a sua fazenda”

Na tarde seguinte, estão todos reunidos no bar da cidade quando um forasteiro de aspecto sujo e roupas de vaqueiro, no entanto, como todos perceberam, alguém que deveria ser respeitado, para o próprio bem. “Traga-me o que tiver de mais forte. E sem gelo”. O bar pareceu respirar de novo quando o estranho saiu. O fazendeiro, agora pobre, foi em seu encalço.

Todos pareciam saber por antecipação, mas ninguém explicou porque nada fez para impedir. Foi um escândalo quando a história de que alguém havia entrado escondido pela porta dos fundos e o senhor rico fora encontrado morto em sua cama na manhã seguinte. Sua filha, que encontrou o quarto banhado de sangue, mal conseguiu gritar por ajuda e precisou de muitos calmantes para poder contar que não ouvira nada.

Os funerais começaram cedo porque todos estavam com medo do assassino que estava à solta. As pessoas se despediam tradicionalmente, a filha estranhou o olhar vago do forasteiro quando ele entrou na capela. Por algum motivo ela sentiu uma batida no coração, uma batida de paixão.

Pouco antes do final, ela decidiu sair e ver onde estava o estranho. Pior do que a visão de seu pai morto foi à cena de um homem vestido com trapos, com uma faca ensangüentada na mão e o fazendeiro pobre estirado no chão. O ódio que tomou conta da moça pareceu ter atraído todos para fora. E para a alegria de todos, foi rápido, ela com uma pistola e um assassino morto. O povo achou justo nomeá-la xerife da cidade, mas alguns simplesmente não entendem porque a moça andava armada.

26/10/2007

A visita branca

José Ademar Santos era um senhor grande. Tinha um metro e meio de envergadura dos ombros, olhos coesos e uma careca que impunha respeito. Ele trabalhava na polícia militar, mas fazia “bicos” para sustentar a família, formada por mulher, cunhada, sogra, e muitos filhos. Seu olhar incisivo era suficiente para reconhecer um elemento que tentasse entrar no armazém, seja este um ladrão ou um rato.

Trocada a farda por uma calça azul escuro e camisa da mesma cor, José ia para sua guarita passar o resto da noite. Em meio às histórias de pescador contadas por trabalhadores noturnos sobre fantasmas e outros tipos, apenas uma ficou marcada entre os guardas noturnos.

Naquele dia, ele estava andando pelo cais quando, de repente, parou. Seu corpanzil não moveu um milímetro. O eclipse começou e a lua apagou, um tremor gélido lhe subiu a coluna parando nos inexistentes fios de cabelo, capas esvoaçavam por todo seu redor, golfadas de ar forçadas e barulhentas tremulavam a atenção ao som de estocadas na madeira como uma perna de pau.

José, lábios contraídos, olhos arregalados, testa enrugada, suor frio lhe escapava por toda superfície imaginável, leve tremor de descrença. Ele parecia um adolescente nervoso por um teste. O “teste” caminhava a passos largos e capuz branco, buracos no lugar de olhos e fendas no lugar de nariz. José sentiu seu peso esvair, formigamento no braço esquerdo, e o corpo caiu.

Ele morreu de susto... Literalmente.

Direi que uma confraternização com um elemento desses numa madrugada sem lua não é um bom jeito de descobrir problemas na válvula cardíaca.

Revolta de campo

João era um menino rabugento, alto, garboso e confiante de si. Nada passava no sistema de reclamações dele sem uma crítica voraz. Todos os dias, ia para a escola pela manhã pensando em como a calçada estava suja, e voltava a tarde pensando que a calçada estaria mais limpa se ele não tivesse ido para a escola pisando nela. Além do mais era uma boa desculpa para faltar à aula, mesmo que a mãe não pensasse o mesmo.

Quando o professor Gilberto foi contratado reconheceu de longe o dom escondido de João. Este foi avisado da dureza que seria a vida dali por diante, mas aceitou. Ele começou a ser treinado no clube de elite da cidade que tinha uma casual igreja, uma praça, pequenas casas de pequenas famílias e um pomposo gramado aveludado do clube.

A criançada tinha passe livre para jogar as partidas de fim de semana no campo, mas João se tornou prioridade, em pouco tempo sua pontaria ficou perfeita, batidas de falta indefensáveis, dribles estonteantes que levavam os cidadãos a loucura no pequeno campeonato da cidade vizinha.

O jogo do dia três se tornou fatídico e ficou marcado na memória de todos por várias gerações. Iluminação perfeita, a brisa fresca deixava o clima ameno, o jogo começou sem mais delongas. O goleiro adversário com certeza se sentiu mal depois dos dez gols de João no primeiro tempo de jogo.

Olheiros sempre atentos fisgaram João depois desse jogo. Ele foi morar em uma cidade bem maior, com muito mais igrejas, muito mais praças, casas bem maiores com muito mais famílias e clubes que pagavam caro pelo talento de um jogador como ele. A felicidade de João foi o reconhecimento.

12/10/2007

A casinha branca

“Era uma casa sombria. Foi Grande o susto quando ouvi...” o distinto som da morte, suspiro gélido de mil almas que, por fim, era um cachorrinho. Bonito cachorro de pelagem café meio sujo pela poeira contida no aposento, mas ele uivou como um lobo a espera do ataque, a sede de sangue podia ser sentida devido ao ar tenso que tomou a casa, mas era apenas fome e ele adorou o sanduíche que eu trazia.

Desci pela estreita e tortuosa escadinha no fundo da cozinha que levava ao porão. As sombras engoliam qualquer sinal de normalidade daquele cômodo e então pude sentir a respiração da criatura, estava nervosa pelo ritmo. Gritos engasgados de choro me levaram a um armário do qual pulou uma moça tremendo muito de medo.

Tive que agir rápido ou logo seríamos envolvidos pela cólera da casa, protegi a senhorita com meu corpo. Luzes vermelhas se difundiam com as labaredas laranja e o calor passava pelo meu colete de proteção. Corri em direção à porta parando apenas para apanhar o cachorro que ainda uivava, dessa vez de medo.

Uma vez fora da casa, libertei de minha proteção a moça e fui ao centro de atendimento, eu precisava respirar melhor. Enquanto o paramédico acionava o tanque de oxigênio, pude observar a garota que havia salvado. Pálida, coberta de fuligem, seus cabelos lisos e negros pendiam suados sobre rosto, que era muito bonito mesmo naquela situação apavorante.

A vida dos bombeiros é difícil para todos os seus membros, uma pergunta insistente nos atinge todos os dias quando acordamos: “Será que tentando salvar uma vida hoje, voltarei com vida?”

05/10/2007

João na selva de pedra

Cidade pequena, não, cidade minúscula formada por uma estrada de barro mal batido digno de um lamaçal, Igreja, praçinha e dez ou quinze famílias. Classificada como aldeia indígena pelo IBGE e considerada terra de ninguém, esta cidade era comandada pelas lideranças religiosas e por um delegado-xerife.

Um dia, João se fechou com o desejo de ir à cidade grande, mas não qualquer cidade. Foi à Nova Iorque, graças a suas amizades. Ele não demorou a conseguir um emprego como faxineiro de uma empresa de alta tecnologia. Em meio aos corredores de mármore e superfícies metálicas cintilantes, João empregava palpites aos transeuntes que nem sequer o ouviam.

Certa vez ele falava com um comerciante e apoiou-se com a ajuda da vassoura. Uma infeliz pessoa que passava tropeçou e torceu o pulso. João foi levado à delegacia algemado e surrado. O delegado o prendeu por cinco anos sob acusação absurda de tentativa de homicídio de acordo com alguma lei citada pelos guardas.

Ele era brasileiro e não desistiria nunca. Quando saiu da prisão, voltou a trabalhar. Logo a primeira sala que deveria limpar era um laboratório. Tudo parecia errado. Quando se virou, esbarrou em um objeto metálico que fez tudo parecer certo. Os cientistas correram em sua direção enquanto ele já sentia as algemas novamente em seus pulsos, de repente todos os gênios apertaram sua mão pela nova descoberta.

Naquele momento, João se sentiu rico, poderoso, importante, mas viu tudo sumir com a corrida desesperada de uma pessoa pelo corredor. Ouviu gritos como: “Espião no prédio!”. Ele não sabia como sabia, mas estava novamente tão pobre quanto quando chegou à cidade grande.

- Diabos...Voltarei à minha cidade onde dá para espionar no máximo as moças do coral.

01/10/2007

RELEITURA a formiga e a cigarra (sim a história infantil)

Outono ameno de rotina dura. A formiga trabalhadora se desgastava, dia após dia, para que por ventura o frio a acometesse, estocados alimentos disponíveis estivessem. A cigarra, indivíduo largado, pela floresta a festejar como que futuro algum pudesse situação pior trazer.

Outono é passado e as lufadas de vento gélido trazendo flocos pálidos anunciavam a chegada do inverno. Foi quando de arrependimento solene e lágrimas do orvalho que passam ambos com o vento, a cigarra pediu abrigo à sua companheira formiga. Esta aceitou contrariada por saber que seu trabalho duro seria dividido com alguém que nunca fez nada, mas talvez aquela aprendesse a lição - pensou a formiga.

Feliz descoberta envolveu a cigarra, e não se omitiu por mais nenhum dia. Pensamento certeiro revelou a formiga, porque não hesitou ao primeiro sorriso do sol e aos primeiros ventos virgens para a dupla começar a trabalhar. Porque além do mais, o inverno sempre estava chegando.

Fantasiou, fabricou

O fantasioso por si denota a apatia humana diante de temas de tal forma subjetivos que se tornam impensáveis. Por tanto, de recíproca temática, o fantasioso é suprimido ao longo dos anos à entrada da sociedade, guardando-o somente para si. Talvez mais tarde fosse exposto, transformando executivo em criança grande.

Tem-se convencionado que fantasia é coisa de criança e que elas merecem assistir aos desenhos animados. Fato é que com o dia-a-dia cada vez mais acirrado, sobra pouco tempo livre para trabalhadores, mas há de se convir que estes não deveriam culpar aqueles que passam seu tempo brincando, se divertindo.

As idéias produzidas pela fantasia são muito valiosas no capitalismo, tendo essas como bases para as grandes guinadas do consumismo. Muito utilizadas na criação e divulgação de produtos e modelos novos. No ramo de invenções tornam-se comuns a utilização da idéia de uma criança, que por inocente, tem as fantasias livres.

Assim como em matemática, o Homem consegue criar problemas. Levando a pessoa a viver um mundo só seu, fechado, isolado do mundo comum pelas suas idéias, assim como em “A frase” de Luís Fernando Veríssimo, em que o personagem cria a frase perfeita, "O Chivas Regal dos uísques”, e fica “sentado, as pernas cruzadas, o olhar perdido...” vivendo sua genialidade.

A fantasia está presente em muitas coisas de hoje. Elevando o momento de imaginação ao de criação, podendo originar prós e contras intermináveis, mas que deixam clara a função do “mundo das idéias” idealizado por Platão. E que a frase “a verdade é a mentira que deu certo” se torna cada vez mais presente no dia-a-dia da humanidade.

19/09/2007

Simples, ela, bela

“Sala de estar. Quatro pessoas. Uma mesa e várias discussões. A mais importante delas era sobre como resgatar o...”

pequeno sobrinho do dono das terras locais. Havia uma grande recompensa para quem encontrasse o garoto perdido.

Uma imagem que entrou pelo portal desviou a atenção dos irmãos. Não se trocou palavras. Uma figura muito alva, com suas belezas veladas por um leve vestido de fazenda fina e um véu de mesmo tecido. Agora, afastado da face deixando à mostra um rosto fino emoldurado por longos e lisos fios sedosos louro-prateados. Demonstrava uma tranqüilidade interna e clareza de espírito supremos que seriam tangíveis ao tato se lhe fosse concedida a honra de se aproximar de tal forma serena. Sensação confirmada pela pureza de seus profundos olhos verdes, que pareciam janelas para o mar cristalino de um paraíso.

Em meio a este ambiente pacífico, os irmãos se entreolharam com rostos frouxos. Neste momento, travaram-se batalhas silenciosas, invejosas. E como que de conclusão unânime para o método de resolução do impasse iniciou-se a verdadeira batalha. Instintos assassinos e técnicas de luta passadas por gerações na família foram usados durante a batalha, porém, naquela vez, foi usado contra a própria família.

Foi uma cena dantesca para a espectadora desconhecida. Um piscar de olhos revelou uma lágrima solitária escapando por sob as pálpebras. Os urros medievais provenientes da luta não foram capazes de abafar a força com que a voz da doce dama os fez parar. Quando afrontada pelos quatro, seu rosto foi tomado por rubor intenso. E se retirou, para nunca mais voltar.

A tristeza que se seguiu superou a crise financeira da família. Cada irmão levou para si a culpa da perda da bela companhia.

Sala de estar. Quatro pessoas mais uma vez à mesa. E, de repente, voltou-se a falar do menino perdido. Porque afinal de contas, os pais dele deviam estar preocupados...

11/09/2007

Enfim liberdade

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-ninguém vai entender o texto bem porque tem um otro texto que é o tema.-

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Primeiro dia que estive fora da casa de minha avó pude sentir a liberdade. O som da rua me aguçava os sentidos. A mistura dos barulhos transforma tudo em uma música ritmada, que parecia pulsar do coração de cada transeunte. Percebi o leque de oportunidades que se abria na minha frente. O céu azul, clima fresco com seus vinte e dois graus Celsius, as circunstâncias me transformavam num estrangeiro à vida.

Nas primeiras horas da manhã que já tinham o sol a banhar os campos com seus tímidos raios luminosos, comecei minha jornada. Fui ao aeroporto com bagagens a mão, e um tempo mais tarde já embarquei, como destino o Taiti. O paraíso das águas cor de esmeralda e do relaxamento total do corpo e da mente. Durante três dias fiquei sentado em uma cadeira à beira da praia.

As ilhas do pacífico perderam seu encanto após algumas festas noturnas e em um mês me mudei para o Havaí. As maravilhas se tornaram cotidiano e eu queria conhecer mais. Viajei pelo mundo inteiro procurando um lugar que me chamasse a atenção, mas já comecei a pensar na casa da minha avó.

Afastei esse pensamento para longe, porque eu não poderia estar pensando em voltar depois de todo esse tempo de desejo de liberdade. Os chás ingleses e os vinhos italianos já me irritavam, eu não podia nem ouvir uma palavra sobre a cerveja alemã. Tudo era regional e me lembrava as comidas brasileiras.

Voltei para casa de minha avó para encontrá-la feliz. Pude novamente me sentir em casa. Descobri-me escritor e vivo escrevendo a torto e a direito. Mas uma coisa é certa, ainda viajo ao Taiti para colher o rosal de amores que noutra época havia plantado.

08/09/2007

É...amor.

A filha de Luís era Isabela. Desde cedo fora garota forte, de corpo fino, porém incrivelmente resistente. Era boa aluna na pequena escola que estudava e nunca reclamava de seus afazeres diários. Ao seu espelho de destino, um paradoxo para a humanidade era Lucas. Vulgarmente chamado de “a terrível criança do apartamento 203”. Ele não ficava ciente do mundo a sua volta até que ele tivesse lucro em fazê-lo.

Todo dia, “o terrível” subia três andares com a esperança de acompanhar Cecília até a escola. Este era seu lucro em ir à escola. Ela era uma menina especial e Lucas já havia a descrito como o sonho de todos os homens. Deveras que cabelos compridos loiros a cair por suas costas, olhos de um verde quase branco, e corpo esbelto, não há de ser um mau sonho.

Certa manhã de sábado, dez anos depois, tempo nublado e com forte nevoeiro devido à poluição, percebia-se que o sol se mostrava de outra cor no horizonte. A janela ficara hermeticamente fechada durante muito tempo, mas naquele dia, Lucas voltou ao seu apartamento.

O paradoxo finalmente entrou pela garganta adentro e o fez engolir seco. Sim, Cecília permanecia bela, e talvez mais bela do que já fora, se isso era possível, mas outra mulher anuviava sua visão; feições delicadas e de perfeição como só provenientes do Olimpo poderiam possuir, sua presença por si só forçava ser vista. Ficou tonto, fechou o olho.

Um ano depois, Lucas estava na igreja esperando sua bela noiva, que um dia havia o feito esquecer sua antiga Cecília. Os convidados inquietos pelo pequeno atraso, já contado cada segundo pelas madrinhas. Quando o padre pronunciou suas palavras e perguntou a Lucas se aceitaria Isabela como sua esposa, ele bradou que sim. Naquele momento, que fosse somente naquele momento, ele era feliz para sempre

30/08/2007

Juca Medeiros, o mestre.

O senhor Juca. Contador de grandes histórias, e estórias. Estatura baixa, meio “mirrado”, ossos frágeis, feições tranqüilas e simpáticas de um bom eloqüente e excepcional companhia para o lanche da tarde. Carregava um tanto a mais de rugas do que outras pessoas da mesma idade. Suas narrações afloravam de sua memória sem esforço e com tal facilidade as dramatizava aos ouvintes.

Era um sábado de manhã e Juca se despediu de seus visitantes. Virou-se para se servir de mais uma xícara de café quando a campainha da porta fez-se ouvir. A que foi prontamente aberta, porém ninguém a se receber. O processo se repetiu quatro vezes: toca a campainha, abre e ninguém a vista.

Num ímpeto de nervosismo, ele esmurra a porta e ela solta das dobradiças com um estrondo, voando pelo ar muito rápido, caindo com estrépito a cinqüenta metros de distância. O barulho deixou o velho pasmo, este olhou para suas mãos com uma mistura de excitação e medo que nunca havia vivenciado.

Pensou que seria bom buscar a porta para recolocá-la, então neste instante a porta mais uma vez alça vôo de seu repentino leito e pousa levemente em seu portal de origem. O entendimento brota de seu pensamento assim como a torta que pensou e foi materializada. O desconhecido inoportuno havia lhe confiado poderes. Suprimiu este pensamento como que para que ninguém ouvisse.

Suas criações e feitos inconseqüentes forçaram Juca ao exílio e ao controle incondicional de sua mente por meditação. Na época, disseram que havia morrido, mas depois foram soltos muitos histórias. Um em particular frisa bem suas condições e profetiza a elevação da alma pela meditação milenar do imortal Juca.

15/08/2007

Palavras: uma alquimía

“A palavra convence e conquista”. Decerto que para alguns não restam dúvidas da veracidade dessa frase, porém outros confiantes de suas ótimas habilidades contra influências de outros acabam por se enganarem. O controle exercido pelas palavras atinge um patamar “místico”, por ser desconhecido.

Nas relações. A palavra certa pode influenciar a decisão final, obviamente as palavras chave que afetam as dúvidas e as certezas de uma pessoa são diferentes das de outra. Com certa prática é possível descobrir facilmente esta característica ou pelo menos chegar bem perto. Por envolver certos retoques da realidade, pode influenciar também na intensidade do fim do relacionamento.

Nas vendas. Um vendedor profissional não está em pé o dia inteiro para lhe fazer companhia no passeio à loja. Ele usa de artifícios na conversa para reconhecer seus desejos de compra, mesmo que você não esteja lá para comprá-los. Este diferencial modificará a apresentação do produto pelo vendedor, que irá ressaltar seu interesse.

Nas redações. A idéia que foi passada para o papel de forma irregular acaba por despertar o lado muito crítico do corretor, enquanto o texto capaz de lhe prender a atenção deveria ser premiado Dado o número de textos a serem corrigidos e a forma já maquinal de ler.

São infinitos os recursos das palavras, desde causar sensações às trocas de opinião. Essa técnica é vastamente explorada em marketing, principalmente no rádio, onde não se pode contar com o visual. O mundo continua girando, e sem que ninguém perceba, continuamos enganados por nossas mentes.

07/08/2007

Cecília

O sol desaparecia por de trás dos montes longínquos, perfeito cenário para a maior festa do ano. O casamento de Cecília fora organizado, diziam boatos, para mais de mil pessoas, mesmo que todos negassem que tivessem sido convidados. Moça simpática, a bela Cecília. Feições calmas, profundos olhos verdes. Corpo bem desenhado envolto por vestes dignas de Afrodite, e que ela preenchia com a simplicidade de menina e presença de mulher.

A senhora ao piano endireita-se e começa a tocar a marcha nupcial. Pescoços viraram para acompanhar a noiva que havia chegado. O noivo se aprumou. Ela entrou na bela igreja, decorada com flores brancas e iluminada por muitas velas. Conforme andava seus sapatinhos ecoavam no chão de madeira lustrosa, e eu lembrava:

Primeiro passo, viagens; segundo passo, jantares; terceiro passo, anel de diamante e pedido de noivado; quarto passo, Cecília recusa... depois voltei à realidade, ela já está no altar construído com mármore branco e muito ouro nos detalhes. Assistir ao padre conduzir a cerimônia me fez sentir como se existisse algo escamoso dentro do meu estômago e de ímpeto levantei-me, suando frio, mão tremendo e dedo em riste. Gritei:

“Você...!” Minhas pernas perderam força, quando quebrei o silêncio e as mil pessoas se viraram para me olhar. A voz sumiu. Senti a garganta seca, pois não consegui engolir nem respirar como se todos tirassem minha energia. Vi os bancos de madeira e o longo corredor tremerem, os sentidos começarem a embaralhar. O dedo baixou devagar enquanto os convidados voltavam, aos poucos, suas atenções para os noivos. Não poderia deixar essa gafe passar em branco, não neste casamento. Então completei:

“Você...sabe onde é o banheiro?”

27/07/2007

Pombo filosófico, pomba irritada

A tarde despontava dando lugar ao breu da noite.

-Mas isso não é desculpa para se atrasar. Onde já se viu? Querer andar para ver à tarde.

-Querida, você não entendeu, a tarde estava linda, tão linda quanto você, quanto o mundo.

-E você precisava escolher andar, logo hoje?

-É tudo uma questão de como a flor desabrocha, de como está o verde das plantas.

-Você tem certeza que quer casar? Eu não vou suportar mais atrasos depois desse.

-Amor, era necessário, à tarde estava me chamando, me seduzindo eu não pude resistir.

Há muito já era noite, porém os pombos em sua discussão não percebiam o tempo passar.

-Você vai continuar dizendo que a tarde era mais importante do que chegar no horário pra casar comigo?

-Não há diferença na importância de cada, foi apenas uma oportunidade que eu escolhi aproveitar assim como o poeta escolhe cuidadosamente suas rimas.

Neste momento a pomba estava muito irritada.

-Então eu nunca mais quero te ver

E alçou vôo.

Os dois nunca mais se viram, mas aquela tarde fora inesquecível.

21/07/2007

Computador...

Estava frio quando Claudio acordou. Se vestiu depressa para não se atrasar para o trabalho, estava havendo corte de pessoal. Como em um dia qualquer, ele ligou seu computador enquanto preparava seu café na máquina de expresso. Percebeu que algo estava errado quando o servidor negou sua conexão. Esse não é o meu dia - pensou. Precisava receber a confirmação de seu projeto de qualquer maneira. Após comer alguma coisa para enganar o estômago, ele tocou a campainha do vizinho. Parece que cinco e meia da manhã não é uma boa hora para tocar no apartamento ao lado, concluiu Claudio, depois de correr o prédio inteiro tentando despistar vizinho, um velho policial aposentado de uns oitenta anos que corria pelas escadas com grande vigor. Educação física nunca foi meu forte na escola, Claudio explicou a si mesmo.
Seu estado era deplorável. Suava como se fosse corredor de maratona, mesmo tendo corrido quatro jogos de escada.
Sua aparência acabou chamando a atenção de uma senhora que participava da campanha contra a pobreza. Vendo em Claudio um mendigo educado, se propôs a levá-lo a abertura de um jogo de futebol.
Sua canseira o igualava a um bêbado, concordou sem nem menos ouvir a proposta.
Chegou no estádio sendo empurrado por todos os lado, os gritos da torcida o deixaram mais tonto, bebeu um copo de água, se preparou, teria que improvisar o hino nacional. Foi novamente empurrado pelos guias para dentro do estádio com cobertura de todas as emissoras de televisão, quando a senhora se dirigia ao microfone, Claudio se adiantou e começou:
-Ouviram, do Ipiranga... Ouviram do ip... ouviram do ipiranda as mar...
A próxima coisa que se lembrava era de um cheiro de gramado. Os dias na UTI pareceram não desanimar ele. E com muita certeza de si, foi para o trabalho. Depois de dirigir por três quarteirões com um engarrafamento recorde, conseguiu chegar a sua mesa de digitação.
Uma movimentação estranha ao lado chamou sua atenção. Era seu chefe:
- Estava bom o jogo Claudio?
- Nada mau...- disse com voz de sono.
- Que ótimo. Ah, você está despedido.
Claudio olhou para o relógio: 8:01
Oh, vida chata- pensou guardando seus pertences de trabalho em uma caixa de sapato. Agora, se meu computador não funcionar.... EU ME MATO.

Pergunta cretina: Que que eu estou fazendo escrevendo às 11 horas da noite tendo q acordar cedo amanhã?!

20/07/2007

Que se dê inicio...

A criatividade de hoje em dia se dá, em parte, pelos jovens que tentam burlar o trabalho para ficar em estado de ócio, não nego, também sou assim. Tenho 15 anos e espero manter este site atualizado semanalmente. A principio irei postar toda segunda-feira, e principalmente meus trabalhos de redação da escola. Me darei ao luxo, ainda, de escrever algumas crônicas ou poesias especialmente para o blog.
Alguns exemplos clássicos da praticidade juvenil são:
[Redação sobre o tempo]
Tic tac, tic tac, tic tac (30 linhas depois...) tic tac.
[Redação sobre a água]
Pingo, pingo, pingo (30 linhas depois...) pingo, pingo. Encheu.

Essas redações, por mais simples (e como muitos pensaram: ridículas) usou-se de extrema habilidade criativa. O equivalente a simplificação matemática, assim como nos exemplos acima, o autor abordou os temas, de fato sem conteúdo, porém cumpriu seu objetivo, encher as linhas da prova.
As escolas de hoje se restringem a aprovação do aluno no vestibular, não dando a ela alguns princípios que para serem aprendidos sozinhos levariam um longo tempo de experiências e fracassos. A negligência da vida pós-escola tem criado uma geração, por exemplo mais aliciável aos meios de comunicação. Pessoas mais frágeis, sem iniciativa ou sem poder de decisão, que acabam diminuindo a qualidade de trabalho. E seus empregos serão tomados pelos que, sozinhos, conseguiram elevar sua visão à realidade.
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-Deixemos a cada idade a sua atmosfera própria, [...], e não antecipemos a da reflexão, que é tornar infelizes os que ainda não passaram do puro sentimento.
(Helena - Machado de Assis)"