05/10/2007

João na selva de pedra

Cidade pequena, não, cidade minúscula formada por uma estrada de barro mal batido digno de um lamaçal, Igreja, praçinha e dez ou quinze famílias. Classificada como aldeia indígena pelo IBGE e considerada terra de ninguém, esta cidade era comandada pelas lideranças religiosas e por um delegado-xerife.

Um dia, João se fechou com o desejo de ir à cidade grande, mas não qualquer cidade. Foi à Nova Iorque, graças a suas amizades. Ele não demorou a conseguir um emprego como faxineiro de uma empresa de alta tecnologia. Em meio aos corredores de mármore e superfícies metálicas cintilantes, João empregava palpites aos transeuntes que nem sequer o ouviam.

Certa vez ele falava com um comerciante e apoiou-se com a ajuda da vassoura. Uma infeliz pessoa que passava tropeçou e torceu o pulso. João foi levado à delegacia algemado e surrado. O delegado o prendeu por cinco anos sob acusação absurda de tentativa de homicídio de acordo com alguma lei citada pelos guardas.

Ele era brasileiro e não desistiria nunca. Quando saiu da prisão, voltou a trabalhar. Logo a primeira sala que deveria limpar era um laboratório. Tudo parecia errado. Quando se virou, esbarrou em um objeto metálico que fez tudo parecer certo. Os cientistas correram em sua direção enquanto ele já sentia as algemas novamente em seus pulsos, de repente todos os gênios apertaram sua mão pela nova descoberta.

Naquele momento, João se sentiu rico, poderoso, importante, mas viu tudo sumir com a corrida desesperada de uma pessoa pelo corredor. Ouviu gritos como: “Espião no prédio!”. Ele não sabia como sabia, mas estava novamente tão pobre quanto quando chegou à cidade grande.

- Diabos...Voltarei à minha cidade onde dá para espionar no máximo as moças do coral.

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