26/10/2007

Revolta de campo

João era um menino rabugento, alto, garboso e confiante de si. Nada passava no sistema de reclamações dele sem uma crítica voraz. Todos os dias, ia para a escola pela manhã pensando em como a calçada estava suja, e voltava a tarde pensando que a calçada estaria mais limpa se ele não tivesse ido para a escola pisando nela. Além do mais era uma boa desculpa para faltar à aula, mesmo que a mãe não pensasse o mesmo.

Quando o professor Gilberto foi contratado reconheceu de longe o dom escondido de João. Este foi avisado da dureza que seria a vida dali por diante, mas aceitou. Ele começou a ser treinado no clube de elite da cidade que tinha uma casual igreja, uma praça, pequenas casas de pequenas famílias e um pomposo gramado aveludado do clube.

A criançada tinha passe livre para jogar as partidas de fim de semana no campo, mas João se tornou prioridade, em pouco tempo sua pontaria ficou perfeita, batidas de falta indefensáveis, dribles estonteantes que levavam os cidadãos a loucura no pequeno campeonato da cidade vizinha.

O jogo do dia três se tornou fatídico e ficou marcado na memória de todos por várias gerações. Iluminação perfeita, a brisa fresca deixava o clima ameno, o jogo começou sem mais delongas. O goleiro adversário com certeza se sentiu mal depois dos dez gols de João no primeiro tempo de jogo.

Olheiros sempre atentos fisgaram João depois desse jogo. Ele foi morar em uma cidade bem maior, com muito mais igrejas, muito mais praças, casas bem maiores com muito mais famílias e clubes que pagavam caro pelo talento de um jogador como ele. A felicidade de João foi o reconhecimento.

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