26/10/2007

A visita branca

José Ademar Santos era um senhor grande. Tinha um metro e meio de envergadura dos ombros, olhos coesos e uma careca que impunha respeito. Ele trabalhava na polícia militar, mas fazia “bicos” para sustentar a família, formada por mulher, cunhada, sogra, e muitos filhos. Seu olhar incisivo era suficiente para reconhecer um elemento que tentasse entrar no armazém, seja este um ladrão ou um rato.

Trocada a farda por uma calça azul escuro e camisa da mesma cor, José ia para sua guarita passar o resto da noite. Em meio às histórias de pescador contadas por trabalhadores noturnos sobre fantasmas e outros tipos, apenas uma ficou marcada entre os guardas noturnos.

Naquele dia, ele estava andando pelo cais quando, de repente, parou. Seu corpanzil não moveu um milímetro. O eclipse começou e a lua apagou, um tremor gélido lhe subiu a coluna parando nos inexistentes fios de cabelo, capas esvoaçavam por todo seu redor, golfadas de ar forçadas e barulhentas tremulavam a atenção ao som de estocadas na madeira como uma perna de pau.

José, lábios contraídos, olhos arregalados, testa enrugada, suor frio lhe escapava por toda superfície imaginável, leve tremor de descrença. Ele parecia um adolescente nervoso por um teste. O “teste” caminhava a passos largos e capuz branco, buracos no lugar de olhos e fendas no lugar de nariz. José sentiu seu peso esvair, formigamento no braço esquerdo, e o corpo caiu.

Ele morreu de susto... Literalmente.

Direi que uma confraternização com um elemento desses numa madrugada sem lua não é um bom jeito de descobrir problemas na válvula cardíaca.

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